Cronica da Vida Real – O Manjericão da Dona Rosa

Marcelo Politi

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Mesmo quem mora em São Paulo pode não saber que a Vila Beatriz é um sub-bairro da Vila Madalena, ali onde a Vila Madalena encontra o Alto de Pinheiros.

Há alguns anos atrás eu estava no sacolão da Vila Beatriz à procura de manjericão para fazer um pesto “alla genovese”, uma vez que tinha acabado de chegar da Itália e havia trazido na bagagem alguns saquinhos de pinoli, um “pinhãozinho”, semente pequenina, branca e ovalada, de um pinheiro típico do mediterrâneo.

O manjericão usado na Itália para se fazer o pesto genovês tem folhas grandes, largas, bem verdes, é conhecido aqui como manjericão italiano ou alfavaca. É difícil de achar nos mercados.

Neste dia, já sabendo que era difícil encontrar o manjericão italiano, estava em busca do normal mesmo, mesmo sabendo que teria mais trabalho para arrancar as folhas e que o sabor final não ficaria como o original genovês, apesar do pinoli, do azeite e do parmesão serem oriundos da Itália. Enfim, é o que temos para hoje, certo?

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À esquerda um manjericão normal e à direita o manjericão italiano

Não encontrei nem o manjericão normal no sacolão, e manifestei minha indignação no caixa: “- Como pode não ter manjericão em um lugar conhecido como sacolão???”

Atrás de mim na fila do caixa uma senhora muito simpática me abordou: “Olha, eu tenho manjericão na  minha, moro aqui do lado”.

“Do lado tipo do lado mesmo???” – Estava em um daqueles dias de paciência zero.

“Sim, naquela casa do outro lado da rua. Está vendo o pé de manjericão?”

Vamos concordar que este diálogo em si já é estranho em uma cidade como São Paulo, onde as pessoas, 1) não conversam com estranhos, 2) não convidam estranhos à sua casa e 3) não plantam manjericão.

Atravessamos a rua e conforme ia me aproximando da casa da Dona Rosa – este é o nome da simpática senhora”, e o pé de manjericão ia crescendo a minha frente, um pensamento animador foi se formando em minha mente: “nunca mais vou comprar manjericão na vida”.

Ora, sabemos que o manjericão é uma planta que tem que ter suas folhas colhidas, senão elas morrem. E o ciclo de crescimento é muito rápido, é como mato. Ou seja, a Dona Rosa estava sendo gentil ao me oferecer o seu manjericão mas ao pegar o seu manjericão eu também a estava ajudando, pois não havia meio de ela consumir aquela “produção” na sua casa.

Dona Rosa me deu uns saquinhos e me disse: “pegue o quanto quiser”. Arranquei muitos galhos, fui pra casa (eu moro a uma quadra de distância) e fiz o meu pesto. Como tinha pego muitas folhas, aproveitei para fazer muito pesto. Fiz 4 daqueles potes de nutella. Usei 1 para fazer um penne naquele mesmo dia, guardei um na geladeira (eu cubro a superfície com uma camada de azeite de oliva para que o pesto não escureça na geladeira) para uma massa futura e os 2 potinhos que sobraram eu dei de presente para amigos, que me agradecem até hoje. Olhe o que pode render um punhado de manjericão!

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Ingredientes para o pesto genovês: manjericão (o suficiente para encher um copo de liquidificador), 2 xícaras de azeite de oliva, 200 g de parmesão, uma mão cheia de pinolis (use nozes se não tiver pinolis), 2 dentes de alho, sal e pimenta a gosto.

Indiquei a “fonte do manjericão” da Dona Rosa para muitos amigos, que sempre foram tratados com a mesma gentileza, o mesmo sorriso. Ela adora que as pessoas vão até a sua casa em busca da erva. Começo a achar que esta alegria de viver da Dona Rosa tem a ver com o plantar manjericão.

Nesta semana decidi fazer novamente o pesto genovês, mas desta vez queria realmente fazer com o manjericão italiano, o grandão. Novamente fui a vários mercados e novamente todos me diziam que, ou não conheciam, não sabia do que se trata, ou conheciam mas não forneciam. Nem na feira, onde a variedade de ervas é sempre maior.

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Dê uma resfriada no copo do liquidificador na geladeira. Coloque todos os ingredientes e bata com pulsadas. Rapidamente vira uma pasta.
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Fazendo a massa – eu usei Orechiette. Cozinhe a massa conforme a instrução do pacote e separe um copo da água da cocção. Escorra a massa. Em um bowl coloque o pesto (somente a quantidade para a receita – para 1 pacote de 500g de macarrão eu uso umas 5 colheres de sopa de pesto). Adicione a água da cocção (meio copo) e misture para “esquentar” e diluir um pouco o pesto. Verse o macarrão escorrido e misture. Sirva em um prato fundo com uma fatia torrada de pão italiano e uma ótima taça de vinho branco. O prato merece!

 

 

Resignado, voltei a tocar a campainha da Dona Rosa. “Se só tem tu, vai tu mesmo”, pensei. Dona Rosa veio atender a porta com um semblante triste.

“o que foi, Dona Rosa”?

“É que eu sei que voce gosta do meu manjericão, Marcelo, mas a planta morreu, eu plantei de novo mas olha só, ainda não cresceu. Eu só tenho daquele outro ali, no canto, é o que eles chamam de manjericão italiano…”

Ah, essa Dona Rosa….

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