Fiera Internazionale del Tartufo Bianco d'Alba

O Tartufo Branco de Alba
 
Traduzido em Português para “trufa”, o Tartufo, especialmente o branco, espécie que só existe nas redondezas da pequena cidade de Alba, na região do Piemonte, na Itália, é um alimento que está sempre envolvido por um certo mistério, decorrente de sua inacessibilidade, que por sua vez, decorre de alguns fatores, que exploramos a seguir:
 
O preço é caríssimo, mas porque é tão caro? Fomos à Alba descobrir.
 

Nos hospedamos no Albergo dell’Agenzia (http://www.albergoagenzia.it/), localizado no pequeno “burgo” de Pollenzo, a poucos quilometros de Alba e de Bra, entre os territórios de Langhe e Roero, ou seja, no coração da zona mais importante da Itália quando se trata de enologia e gastronomia.

 
Originário de uma idéia da Slow Food, o complexo de Pollenzo, além do Albergo,  contempla a Universidade de Ciências Gastronômicas, o Banco do Vinho e o Restaurante Guido, cada um deles merecedores de uma matéria exclusiva pelo valor que representam no universo enogastronômico.
 
Deixamos as malas no hotel e seguimos direto para a Fiera Internazionale del Bianco d’Alba, evento dedicado ao Tartufo Bianco, que ocorre aos finais de semana entre os dias 6 de Outubro e 18 de Novembro na cidade de Alba, obviamente.
 
A cidade se mobiliza, as trufas brancas vão chegando e vão sendo vendidas, leiloadas, apreciadas, cheiradas e…degustadas. Não nos deixamos enganar. Na feira, assim como em todos os lugares onde a trufa é comercializada, grande parte dos produtos à venda são derivados da trufa, contém tão somente a essência do produto, muitas vezes produzidos com elementos químicos que reproduzem o odor da verdadeira trufa. Mesmo assim ainda são caros e…se querem saber a verdade, alguns bastante saborosos. 
 
Mas nós fomos atrás da original, da verdadeira, da caríssima trufa branca do Piemonte. E sim, ela estava presente. Em menor quantidade que nos anos anteriores e consequentemente, mais cara. O outono anda quente e seco, condições contrárias às ideais para o “surgimento” das trufas. Sim, porque a trufa não é plantada, não é induzida, não é criada. A trufa surge, como um fungo que se alimenta das raízes de certas árvores. Mas à diferença de outros fungos, ela completa todo o seu ciclo de crescimento embaixo da terra (hipogeo). E cresce em condições bem específicas de umidade e temperatura. Quando completam seu ciclo de crescimento, emanam aquele odor muito característico, que é detectado por cães treinados para farejá-las. 
 
Dá para começar a perceber porque é tão cara? Somente naquele período específico de 3 ou 4 meses do ano, escondidas embaixo da terra em local desconhecido, em bosques de uma região minúscula, em condições ideais de temperatura e umidade, caçadas por trufeiros super especializados, ajudados por seus cães treinados. Para piorar, tem que ser consumida fresca, no máximo 1 semana depois de “caçada” e conservada no frio. Não dá para ser barato!
 
Ao contrário da trufa negra, mais comum, mais fácil de ser encontrada, armazenada e consequentemente, menos valorizada, a trufa branca não serve para enriquecer molhos, entrar em receitas. Sua vocação é ser o único condimento de alguns pratos muito simples, como uma polenta, um fettuccini na manteiga, uma carne crua moída ou até um ovo frito. Ela é sempre fatiada crua, na hora do consumo, em lâminas muito finas, com um fatiador específico.
 
Depois de cheirar, escutar todas as estórias dos caçadores, aprender sobre as diferenças entre cada tipo de trufa, visitar todos os estandes da feira, chegou a hora de colocá-la na boca. “In bocca” como dizem os italianos. Nem chegamos a ponderar se valia a pena pagar os 50 euros que estavam cobrando por um talharim na manteiga com algumas fatias de trufa por cima. Estávamos ali para isto. Este era o momento esperado. Antes devíamos nos preparar…pedimos um Barolo, o famoso vinho tinto do Piemonte, para acompanhar nossa degustação.
 
O talharim chega à mesa macio com sua coloração de ovos, soltando fumaça. O garçon chega com a trufa e a fatia sobre o talharim quente. Eu imploro que ele seja generoso e não páre tão rapidamente de fatiar. Explico que não temos trufas no Brasil. Ele olha para um lado, olha para outro e me atende. A massa está coberta de lâminas de trufas que de tão finas, quase transparentes, começam a derreter. Com um garfo eu começo a misturar a massa e o cheiro que exala do prato é único, nunca havia sentido nada igual. Lentamente vou enrolando a massa no garfo, coletando as trufas que se misturam ao azeite na borda do prato. 
 
Coloco a garfada da boca e fecho os lábios, passando a respirar só pelo nariz, de modo que o aroma permaneça por mais tempo. Fecho os olhos para me concentrar no sabor, que me remete as profundezas daquela terra onde as trufas foram achadas. Difícil descrever o gosto, mas muito, muito específico e único. Abro a boca, deixo entrar um pouco de ar e tomo um gole do Barolo, filho daquelas mesmas terras, casamento perfeito. 
 
Uma experiência que tinha que ser vivida, ali em Alba, em meados de Outubro. Virei o maior fã do Tartufo Bianco d’Alba. Terei que voltar.
 
 
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